EXHIBITION VIEWS
photo credits:
Pat Kilgore
Exhibition TEXT

FLOW imagines the body as a system of open channels that its owner can lose control over in certain singular but commonplace situations, related to sexuality, illness, childbirth and age. Images from intimate domestic scenes are interspersed with hospital interiors and marine animals, alongside a series of tinted fountain heads. These are based on faces found in the gardens of Museu do Açude, in the Tijuca forest in Rio de Janeiro, undated and made by unknown artists. Spending time in the park, Dolven Balke saw an image of this life-flow in the fountain figures, with their gaping mouths relentlessly spilling water. In collaboration with the museum she was able to take moulds of them on site.

The flow is of time through matter, preserved in a variety of materials with different life-spans. Traces of water through stone and copper are captured in resin, while the slow disintegration of a whale’s body is made physical by an augmented TV flat screen, disassembled to expose the fragile technology beneath. A series of silicone objects, with industrial patterns cast from anti-slip matts, allude to the surface of skin. Encasing original polaroid photographs, they are shown alongside enlarged prints that make visible the dust, hairs and organic matter from the scan, sharp against the larger soft motif. The subjects seem to exist in a liquid atmosphere, floating between layers of chemicals and light, stuck in the thickness of an instant.

(In Portuguese)

A baleia sem assunto

João Paulo Quintella

“…no sofá a falta de assunto
o que eu queria mas não te conto
é abraçar a baleia mergulhar com ela
…”
Rabo da baleia, Alice Sant’Anna

Fonte é água, pedra e fluxo. Para Thora Dolven Balke, uma continuidade para sua íntima iconografia.

São fontes repertoriadas no Museu do Açude, espaço familiar à artista, moradora do bairro adjacente. Ao transitar por esse espaço vizinho, ela encontra e registra as marcas do tempo fluindo na matéria – as ranhuras, o musgo, os dados do desgaste.

A imagem do fluxo contínuo é violenta e as cabeças da série “O”, com suas bocas abertas e vazantes, nos atingem com força.

Com elas, a densidade visual da produção fotográfica de Dolven Balke adquire uma indissoluta propriedade material. A imagem passa por uma transferência de meios, da fotografia para o molde e, na performance ao infinito de suas estátuas jorrantes, surge como imagem-escultura.

A arte aqui é o que dura: o fluxo é incorporado à forma, lançando um olhar para a dilatação do tempo e suas consequências. A morte e a sexualidade aparecem então como paradigmas para a intensidade que o trabalho de Dolven Balke concentra. São momentos onde o corpo padece, onde a certeza de controle e a estabilidade física se transformam em um estado de fragilidade e fugacidade.

O que está em questão não é a retórica, nenhum convencimento, mas um estado onde a vida se faz sentir dentro dela mesma, sem precisar de trajetória alguma. Só importa esse acumulado ininterrupto da história ao qual Thora Dolven Balke consegue dar volume sem jamais precisar endossar qualquer narrativa biográfica.

Na varanda do hotel, o vestido pega sol pendurado em um suporte de soro. Não há fatalidade nenhuma. Nem mesmo interrupção ou crise aparente. O tempo parece correr sem sobressaltos, alheio à lógica do incidente ou do factual.

A carcaça e o seio, a decomposição e o nascimento, o sangue e o leite, são instâncias da perpétua operação de sucção e bombeamento que simplesmente dá prosseguimento e coerência entre a vida e a morte.

Sem a retórica do presente, abre-se o espaço imemorial revelando a permanência insuspeita de nossas sensações mais longínquas que são, em verdade, as mais cotidianas meditações existenciais sobre apreciação e depreciação do corpo. As fontes da artista cristalizam o escoamento do tempo. Como nas míticas fontes da juventude ou da vida, nosso desejo é conquistar a longevidade e restaurar a libido. A morte e a sexualidade sofrem com a eterna busca pelo domínio da duração.

Já na costa marítima, a baleia passa a ser pedra. Não há assim reminiscências, mas o próprio infinito em idas e vindas de autoafirmação.

É essa espessura do tempo, essa correnteza, que Thora Dolve Balke condensa em Flow. Como se, no fundo, não estivéssemos mais do que dando vazão à vida.

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